quarta-feira, 14 de novembro de 2018

COMO "SEGURAR" NOSSOS JOVENS DEPOIS DA CRISMA?


Uma interessante reflexão sobre a "Evangelização" de crianças e adolescentes

Primeiro, penso que "segurar" não é bem a palavra aqui. A gente pode "amarrar", obrigar, usar a força, fazer chantagem, troca... É isso que muitos pais fazem com a catequese. Fazê-los PERMANECER é que é a questão.

Em segundo lugar, vem a discussão sobre o próprio "lugar" do sacramento da crisma. Será que este lugar é na adolescência? Mas, não é esta a questão que vamos discutir aqui.
Outra coisa é que há exceções. Tem gente que "fica". Olha nós aqui! Poucos, raros catequistas, mas, estão na Igreja de verdade.

Este texto é uma "resposta" a uma catequista do nosso grupo, que pediu que eu falasse do assunto.

Mas, eu simplesmente não tenho uma resposta que possa agradar ou ser nossa "salvação" para todos. Porque, infelizmente, isso acontece porque nossa catequese não está sendo eficaz, ou melhor, não tem "anúncio" nenhum aí, conversão nenhuma. Ou seja, não houve o primeiro passo (Anúncio/conversão + catequese + seguimento = Evangelização) da evangelização. Aí vamos para o segundo (catequese) ensinar conteúdos sobre algo que não é o anseio dos nossos pequenos. É isso: nossa catequese acontece orientada para os "sacramentos" e não pela CONVERSÃO. Precisamos MUDAR isso!

"Passar de uma catequese só orientada para os sacramentos, para uma catequese que introduza aos mistérios de Cristo e à vida eclesial." (Item 14 do DNC, letra G).

Este desafio, com certeza, é "O DESAFIO"! Na verdade, um dos "grandes" na nossa catequese, talvez até o MAIOR de todos.

Isso porque NÓS, os próprios catequistas, ainda não nos conscientizamos que a catequese é INICIAÇÃO! Introdução aos mistérios de Cristo e a vida na IGREJA (eclesial). E todos os anos estamos aqui a reclamar: "Cadê nossos catequizandos, depois que recebem o sacramento da crisma?"

Não é uma crítica, por favor, não entendam como se fosse! Mas, o que mais se faz por aqui, na rede social no final do ano catequético, é publicar foto da Eucaristia e da Crisma, como se fosse uma "vitória", um fim de campeonato, uma "chegada"... e o catequista suspira aliviado "Consegui!”.

Conseguiu o que? Conseguiu uma turma de discípulos missionários de Jesus Cristo (convertidos) ou uma foto bonita para guardar de recordação?

E o grande desafio continua sendo este: pensar a catequese como processo, passagem, meio, cujo fim é a CONVERSÃO e o SEGUIMENTO! Não podemos pensar a catequese como "cursinho" para a "primeira" Eucaristia e a Crisma. Como condenar nossos catequizandos e suas as famílias por assim pensarem, se NÓS pensamos também!

Muitas e muitas vezes a Primeira Eucaristia só vê a "segunda" no dia da Crisma; e o sacramento da Confissão é uma coisa para " na páscoa quem sabe?"; E a Crisma? Este, pensa-se como um sacramento “obrigatório para casar”: “Se não fizer, "não caso na Igreja". Então vamos fazer para poder casar de branco, numa festa linda, lá no futuro, (talvez por isso mais meninas que meninos façam a catequese...). Ou então vamos fazer porque senão minha mãe "surta", ou ainda, vamos fazer porque tem uma pessoa lá esperando para ser minha "madrinha" ou meu "padrinho" há um tempão. Sem nem se dar conta que nem precisa de um "novo" padrinho ou madrinha. Se é “confirmação”, eles são os mesmo do Batismo.

Tem ainda uma outra questão: a “maturidade” ou falta dela, para que nossas crianças abracem um compromisso tão sério.

Já passei por um grande "drama" na catequese de crisma. Uma das minhas catequizandas, no quinto ano da catequese não tinha se "convertido". Fui percebendo que ela nunca ia à missa. Quando perguntei sobre isso, me disse que isso ela não fazia: “Já basta ir aos encontros”, disse ela. Não foi à missa depois que fez a Primeira Eucaristia, nem comungou. E me disse um dia que não sabia se Deus existia mesmo. Que "talvez" a fé em Deus tivesse valor apenas quando "precisamos" desesperadamente de alguma coisa, aí, quem sabe Deus ajude quem está precisando.
Tentei várias vezes conversar com ela para "entender" porque uma criança frequenta a catequese, por cinco anos, sem dar valor algum a missa como celebração e sem acreditar em Deus: "Ah, era as amigas que também iam e chamavam... Ah, a catequese que você faz é legal... Ah, se eu não vir pelo menos à catequese, meu pai vai ter um troço... Não, não vou à missa, não acredito naquilo tudo".

Pedi a ela que fosse conversar com o padre, que falasse de suas dúvidas, confusões, anseios: "Por que? Não acredito nisso de confissão, se Deus existe mesmo, posso falar diretamente com ele".

E isso foi me corroendo: será que essa menina de 13 anos vai receber o sacramento sem acreditar nele? Fui conversar com nosso pároco sobre isso. Juntos chegamos à conclusão de que aquela criança, tão confusa, não tinha porque receber o sacramento da crisma. E ele me pediu para chamar os pais para conversar com ele. E eles foram. Depois desta conversa com a família, novamente ele me chamou lá e conversamos. Ele precisava conversar com essa menina.

Então ele me deu uma "missão": que não seria dele e nem dos pais dizer a minha catequizanda que, se ela não fosse conversar com ele a respeito da sua fé, não poderia receber o sacramento junto com as outras crianças.
E tinha que ser eu, A CATEQUISTA, a ter essa difícil conversa. Antes até que os pais falassem com ela a este respeito. E que ele também não falaria porque nem a conhecia: era MINHA responsabilidade.

E eu tentei gente! Fiquei me debatendo com isso durante 3 meses, insistindo para que ela fosse conversar com o padre, esperando o "milagre" da "conversão" de uma criança de 13 anos. As outras catequistas até me disseram que isso podia ser "frescura" de adolescente, que podia "passar", que já que ela estava ali há cinco anos, porque não deixar que ela se crismasse. Cheguei mesmo a pensar em deixar, que talvez ela voltasse depois da crisma, um dia, como é comum a gente iludir.

Mas, chegou o mês de dezembro e eu tive que dar o “ultimato” a ela. E não foi fácil! Foi uma das coisas mais difíceis que fiz nos meus 10 anos como catequista. E a maneira como ela recebeu e interpretou nossa conversa só veio me provar o quão imatura e despreparada esta menina estava.

Ela ficou absolutamente revoltada! Como se a “culpa” por ela estar ali, naquela situação, fosse nossa (da catequese). Ela se sentiu "traída" por mim por ter contado ao padre, por ter conversado com a mãe, que ninguém precisava saber, etc. E como ela ia explicar às pessoas que estavam "esperando" a crisma dela? Que pessoas eram estas: Os pais, a madrinha, a família... Eu ali era só o “X9” da história.
"E Deus?" A Ele ela achava que não precisava explicar nada. Afinal, estaria recebendo um sinal de algo em que não acreditava.

Nem preciso relatar como esta conversa foi tensa, nervosa, decepcionante mesmo. Dolorida. Só não me senti mais fracassada porque, com muita gentileza, meu pároco me consolou dizendo: "Não cabe a você se sentir fracassada, a evangelização é uma estrada de duas mãos".

Liguei para ela dias depois para convidar para nossa festa de despedida antes do natal: por mim, pelos amigos, pelos momentos bons que passamos. Ela respondeu "Não, pra mim já deu". No dia da festinha, ela foi, mas, só para deixar chocolates para a turma (acho que foi a mãe que insistiu), nem entrou. Nos despedimos lá fora, na porta. E eu desejei a ela que “se encontre” com a fé um dia.

Sobre esta criança - sim, porque aos 13 anos somos crianças ainda, para tomar uma decisão tão séria como essa: seguir Alguém pelo resto de nossas vidas - penso que ela tem tempo para pensar, tem pais católicos que, se viverem de fato a catolicidade, vão ajudá-la e tem a vida que ensina mais do que todos os catequistas do mundo. E que, apesar de "criança" ainda, ela foi muito corajosa em assumir suas dúvidas e sua falta de fé. Ela foi muito mais verdadeira que muitos “católicos” que encontramos na Igreja.

E aí vem o nosso DESAFIO de novo: Quantas e quantas crianças e adolescentes estão ali para receber o SACRAMENTO sem acreditar em nada daquilo? Que nunca falam isso pra nós? Quantos crismados somem da Igreja e depois lembram dela para casar, e depois levar os filhos para uma catequese em que não acreditam também? O que ficou ali, se ficou, foi uma fé superficial e imatura.

Isso só vai acabar quando, REALMENTE, fizermos "CATEQUESE"! Que em sua essência é trazer Deus ao coração das pessoas. Ensiná-las a amar a nossa fé e a nossa Igreja. Que prescinde antes de tudo de um "anúncio", uma "vontade" de conhecer melhor Jesus. E que maturidade tem os adolescentes para receber este “anúncio” de pais e famílias que também não o receberam?

Então, acredito que a resposta para esse desafio é continuarmos nossa missão em busca dos "perdidos e não convertidos", que, em suma, são os adultos e não as crianças. O modelo Catecumenal de catequese é uma proposta, mas, uma proposta ADULTA e não imatura como são as crianças e os jovens.

Mais uma coisa...  Por que continuo catequista de crianças e adolescentes se não acredito que isso é a resposta?

Porque por meio desse "relacionamento" que nossa Igreja prioriza (infelizmente, priorizamos a catequese na infância e não na vida adulta), podemos chegar ao coração dos adultos. Todo esse drama que vivi com minha catequizanda, valeu pelas muitas conversas que tive com a mãe dela, que se tornou uma aliada, uma amiga e uma pessoa bem mais consciente de sua missão como cristã. Muito longe de se revoltar conosco, a família entendeu o processo e os muitos “porquês” da nossa recusa em dar aquele sinal da graça a sua filha.

A quem converti? Muito mais a mim mesma, que passei a dar um valor bem maior ao que faço como catequista. Que não é ensinar "sacramento", ou "crismar" por crismar. Recebe-se o sinal do Espírito Santo e todos os dons na adolescência, como sinal de PERTENÇA e SEGUIMENTO, não é para tirar fotografia.

Ângela Rocha
#CATEQUISTASEMFORMACAO

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